Por que nenhum centroavante conseguiu repetir a magia do Fenômeno? Analisamos os números, os contextos e o peso colossal de uma das camisas mais emblemáticas do futebol mundial. Venha conferir a matéria completa!
A sombra do Fenômeno: o peso de vestir a camisa 9 da Seleção Brasileira
A camisa 9 da Seleção Brasileira é uma das camisas, talvez, que mais carrega expectativas, nostalgia e, para muitos torcedores, de uma "maldição" silenciosa que já dura mais de duas décadas.
Desde que Ronaldo Nazário, o Fenômeno, pendurou as chuteiras da Seleção após a Copa do Mundo de 2006, nenhum centroavante de ofício conseguiu preencher o abismo deixado por ele.
Não se trata de falta de talento, o Brasil jamais deixou de revelar grandes atacantes. Trata-se, na verdade, de uma combinação devastadora: a sombra de um dos maiores jogadores da história do futebol somada a uma transformação tática profunda que, aos poucos, foi tornando o centroavante clássico uma espécie em extinção dentro do estilo de jogo canarinho.
Para entender o fenômeno da "maldição", é preciso começar pelo único ponto de referência que todos os sucessores carregam nas costas: a Copa do Mundo de 2002.
O marco histórico de 2002 e a consagração do último grande artilheiro
Seul, Sapporo, Shizuoka, Yokohama. Em cada estádio que o Brasil jogou no Japão e na Coreia do Sul, em 2002, um espetáculo se repetia: Ronaldo Nazário convertendo chances em gols com uma naturalidade assustadora.
Aquela Copa foi a redenção máxima de uma carreira marcada por lesões devastadoras. Ronaldo havia atravessado quatro anos de terror: ruptura do tendão patelar, convulsão na véspera da final de 1998.
O que se viu foi uma das performances individuais mais completas da história das Copas: 8 gols em 7 jogos, incluindo o doblete na final contra a Alemanha, levando o Brasil ao pentacampeonato.
Nenhum jogador que vestiu a camisa 9 depois dele chegou nem perto de replicar essa equação. E parte da culpa não é dos atletas.
Como a evolução tática do futebol transformou a posição de centroavante
A virada dos anos 2000 para os anos 2010 representou uma das maiores revoluções táticas da história do futebol moderno. O papel do centroavante de área, aquele que ficava estático esperando a bola, de costas para o gol, para girar e finalizar, foi progressivamente substituído por sistemas mais fluidos, onde o ataque é responsabilidade coletiva e o homem de referência precisa ser muito mais do que um finalizador.
O surgimento do "falso 9", popularizado por Pep Guardiola no Barcelona de Messi, e a ascensão dos atacantes de transição, que exploram os espaços em profundidade em alta velocidade, mudaram os parâmetros de avaliação de qualquer homem de frente. De repente, o camisa 9 clássico passou a ser visto como um perfil limitado, estático, que "prende" a bola ao invés de criar fluidez.
A Seleção Brasileira, historicamente apegada ao futebol de habilidade individual, demorou para se adaptar a essas mudanças. E quando os técnicos tentaram encaixar um centroavante de ofício nos novos sistemas, o resultado foi quase sempre o mesmo: desconforto, desconexão e, inevitavelmente, decepção.
A saga e os números dos centroavantes pós-Ronaldo em Copas do Mundo
A Copa de 2006 foi, ironicamente, a última de Ronaldo com a Seleção e, ao mesmo tempo, o início da era de transição. O Fenômeno disputou o torneio longe de sua melhor forma, marcou 3 gols (atingindo o recorde de 15 gols em Copas, ultrapassando Gerd Müller), mas não foi suficiente para evitar a eliminação nas quartas de final para a França, por 1 a 0.
O verdadeiro símbolo da transição, contudo, deveria ter sido Adriano Leite Ribeiro. O "Imperador" chegou àquela Copa como um dos atacantes mais temidos da Europa, em 2004 e 2005, havia sido devastador pela Internazionale e pela própria Seleção. Rápido, potente, com chute descomunal e habilidade para jogar de frente ou de costas para o gol, Adriano parecia reunir tudo o que era necessário para ser o herdeiro natural do Fenômeno.
O problema foi que o Adriano da Copa de 2006 não era o Adriano de 2004. Problemas pessoais, relacionados sobretudo à perda de seu pai, e uma relação já deteriorada com a disciplina e a rotina profissional comprometeram seriamente seu desempenho.
Ele entrou como reserva, teve pouca participação e não marcou. A Copa terminou, e com ela a última janela real de Adriano como possível herdeiro da camisa 9.
Copa do Mundo de 2010: África do Sul
Em 2010, Dunga optou por Luís Fabiano como o centroavante titular. O atacante do Sevilla vivia um momento interessante de carreira e chegou à África do Sul com certo crédito acumulado.
Nos grupos, correspondeu: marcou 3 gols, incluindo dois contra a Costa do Marfim e um contra Portugal.
Mas a narrativa da Copa de Luís Fabiano terminou nas quartas de final, onde o Brasil perdeu para a Holanda por 2 a 1. O atacante não marcou nas fases decisivas, e a Seleção mostrou um coletivo que dependia demais da organização defensiva de Dunga e pouco criava para seus atacantes.
Luís Fabiano encerrou o torneio com 3 gols em 5 jogos, números decentes para qualquer outro centroavante, mas que, comparados ao padrão estabelecido por Ronaldo, pareciam insuficientes.
A torcida esperava um artilheiro. Teve um jogador honesto que fez o seu trabalho. A diferença entre as duas expectativas é, precisamente, o tamanho da "maldição".
2014 a 2018: a Frustração com Fred e o Jejum de Gabriel Jesus na Rússia
Nenhuma encarnação da "maldição da camisa 9" foi tão cruel e tão pública quanto a de Fred na Copa de 2014. O centroavante do Fluminense chegou ao torneio em casa como o nome de confiança de Luiz Felipe Scolari, um técnico que sempre valorizou o centroavante de referência, que segura a bola, dá profundidade e permite que o time se posicione.
O problema é que Fred de 2014 estava longe de sua melhor versão. Sua mobilidade era reduzida, sua participação nas jogadas era mínima, e nos momentos em que a Seleção mais precisava de um gol salvador, ele simplesmente não estava lá.
Em 7 jogos, marcou apenas 1 gol, na estreia, contra a Croácia, após pênalti claramente inexistente marcado por Yuichi Nishimura, um dos maiores erros de arbitragem da história recente das Copas.
O que se seguiu entrou para o imaginário coletivo do futebol mundial: a goleada sofrida para a Alemanha por 7 a 1, numa partida que Fred iniciou como titular e que expôs de forma cruel a fragilidade de um ataque que não tinha referência nem criatividade.
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Copa do Mundo de 2018: Rússia
Quatro anos depois, a missão de carregar a camisa 9 recaiu sobre Gabriel Jesus, então com 21 anos e recém-estabelecido como um dos jovens atacantes mais promissores do mundo no Manchester City de Guardiola.
Na prática, Gabriel Jesus viveu uma Copa fantasma. Em 5 jogos, não marcou nenhum gol. Nas poucas oportunidades que teve, pareceu apático ou azar puro, incluindo um gol anulado pela estreante revisão do VAR no jogo contra a Bélgica.
O Brasil foi eliminado nas quartas de final pelos belgas, por 2 a 1, em uma partida em que o ataque mais uma vez não entregou.
2022: Richarlison e a tentativa de quebrar a "Maldição do Número 9" no Catar
Se existia um candidato a exorcizar os fantasmas da camisa 9, ele tinha o nome de Richarlison de Andrade. O atacante do Tottenham chegou ao Catar em um momento de forma excelente e, logo na estreia, entregou um dos gols mais bonitos do torneio: um voleio espetacular contra a Sérvia que parou o mundo.
Com 3 gols em 4 jogos, Richarlison entregou os melhores números de um camisa 9 do Brasil em Copa desde Luís Fabiano. Era veloz, participativo, pressionava a saída de bola e conectava bem com Neymar, Vinicius Jr. e Rodrygo nos espaços.
Então veio as quartas de final contra a Croácia.
O Brasil abriu 1 a 0 com Neymar na prorrogação, pareceu encaminhar a classificação, e viu Modric e companhia empatarem e, nas penalidades, eliminar a Seleção. Richarlison cobrou e converteu sua penalidade, mas não foi suficiente. O Brasil estava fora da Copa mais uma vez na fase de quartas, mais uma vez sem o título.
Afinal, a maldição existe ou o futebol brasileiro mudou?
Vamos ser honestos: a "maldição" é, em grande parte, uma construção narrativa, um atalho jornalístico para descrever um fenômeno que tem explicações muito mais interessantes.
O que realmente aconteceu com o desempenho do ataque brasileiro nas Copas pós-2002 é uma combinação de três fatores:
O padrão de comparação é irracional
Ronaldo Nazário de Lima é um dos três maiores atacantes da história do futebol, ao lado de Pelé e Messi. Exigir que qualquer camisa 9 repita o que ele fez é o equivalente a criticar um bom músico por não ser Mozart.
O Brasil mudou de identidade tática sem perceber
Durante os anos 2000 e 2010, enquanto o futebol europeu evoluía para sistemas mais fluidos e coletivos, o Brasil continuou apostando em soluções individuais, seja um camisa 9 de área, seja a magia de Neymar. A falta de clareza sobre o estilo de jogo gerou um desconforto: os centroavantes não sabiam exatamente qual era seu papel, e o coletivo não sabia exatamente como usá-los.
O perfil de atacante que o Brasil produz mudou
Nas últimas duas décadas, o país deixou de revelar centroavantes puros e passou a exportar um tipo específico de atacante: o driblador veloz de corredor, que brilha pela beirada e que tem dificuldade de jogar como referência central. Neymar, Vinicius Jr., Rodrygo, Antony, Raphinha, todos são jogadores de movimentação, de espaço, de contra-ataque.
Colocar qualquer um deles como camisa 9 tradicional seria um desperdício. E colocar um centroavante de área ao lado deles é, quase sempre, comprometer a fluidez do sistema.
O resultado prático é que o Brasil tem jogado, na prática, sem um camisa 9 real há pelo menos duas Copas.
Cada Copa tem seus próprios contextos, suas próprias tragédias, seus próprios heróis improváveis. Mas o denominador comum permanece: nenhum jogador conseguiu fazer a Seleção esquecer, nem por um momento sequer, que existe um número 9 pendurado em algum lugar, esperando pelo seu dono de verdade.
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