Quando a CBF anunciou Carlo Ancelotti no comando da Amarelinha, em maio de 2025, muita gente reagiu como se o futebol brasileiro estivesse sendo entregue a um qualquer. "A Seleção nunca teve técnico estrangeiro!", você com certeza leu ou ouviu essa frase em algum lugar. O problema é que ela está errada.
Antes de Ancelotti renovar contrato com a CBF até 2030, outros três nomes, um uruguaio, um português e um argentino, já haviam sentado no banco da Seleção. Venha conhecer um pouco da história da nossa amarelinha!
Afinal, a Seleção Brasileira já teve técnico estrangeiro?
A resposta curta é sim. A resposta longa merece um pouco mais de atenção. Venha conferir:
O mito da exclusividade nacional no banco de reservas
A narrativa de que o futebol brasileiro é uma "coisa nossa", intransferível a estrangeiros, é real e tem raízes profundas na identidade nacional. As cinco Copas do Mundo conquistadas sob o comando de técnicos brasileiros, Feola, Zagallo, Telê Santana, Parreira e Felipão, alimentaram décadas de orgulho e de ceticismo em relação a qualquer "gringo" na beira do campo.
Já no século passado, antes mesmo da primeira Copa do Mundo (1930), a Seleção Brasileira pisou em campo sob o comando de um treinador estrangeiro. Foram ao todo três casos, todos pontuais, todos carregados de contextos históricos únicos. Somando todas as partidas dos três técnicos, a Amarelinha disputou apenas sete jogos com um "gringo" no banco, com um retrospecto bastante positivo de cinco vitórias, um empate e uma derrota.
Por que o nome de Carlo Ancelotti causou tanto barulho?
A chegada de Ancelotti ao Brasil, em 2025, foi diferente de tudo o que aconteceu antes, em escala, visibilidade e simbolismo. A CBF foi atrás dele de forma deliberada, em meio a uma crise de resultados e de identidade do futebol brasileiro.
A renovação do contrato até 2030, anunciada em maio de 2026, consolidou o que antes parecia provisório: a Seleção Brasileira tem, pela primeira vez em sua história, um projeto de longo prazo com um técnico estrangeiro no centro. Para entender por que isso importa tanto, vale a pena olhar para trás, para os três pioneiros que ninguém lembra.
Os nomes que fizeram história: quem foram os treinadores gringos da Seleção?
Tudo começou de forma quase acidental. Em dezembro de 1925, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) havia convocado o técnico Joaquim Guimarães para comandar o Brasil no Campeonato Sul-Americano, disputado na Argentina.
Mas ao chegar lá, ficou claro que a delegação precisava de alguém efetivamente na beira do campo. Guimarães assumiu a função de diretor técnico, e o uruguaio Ramón Platero, que estava no Brasil trabalhando no Vasco da Gama, foi promovido a treinador de campo, com plenos poderes para convocar e escalar.
Platero havia conquistado o Campeonato Sul-Americano pelo Uruguai em 1917 e era considerado um dos maiores estrategistas do continente. No Brasil, fizera uma trajetória curiosa: em 1922, chegou a comandar simultaneamente Flamengo e Vasco, o Cruz-Maltino na segunda divisão e o Rubro-Negro na elite, e foi bicampeão carioca pelo Vasco em 1923 e 1924.
À frente da Seleção Brasileira por apenas 19 dias, de 6 a 25 de dezembro, o uruguaio disputou quatro partidas. A estreia foi animadora: 5 a 2 no Paraguai. Veio depois a derrota para a Argentina por 4 a 1. Na sequência, nova vitória sobre o Paraguai, por 3 a 1, e um empate por 2 a 2 com os argentinos no returno.
O Brasil terminou vice-campeão do torneio. Platero voltou ao futebol de clubes e ainda teria passagens pelo Palestra Itália, Fluminense, Botafogo e São Paulo antes de se aposentar em 1940.
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Joreca (1944)
Jorge Gomes de Lima, o Joreca, nascido em Portugal, chegou jovem ao Brasil e construiu uma carreira sólida nos clubes paulistas, seria tricampeão paulista pelo São Paulo.
Em 1944, a CBD tomou uma decisão incomum: escalou dois treinadores para comandar a Seleção em dois amistosos contra o Uruguai. Um representava a escola do Rio de Janeiro (Flávio Costa, multicampeão por Flamengo e Vasco); o outro, São Paulo (Joreca). Os dois dividiram o banco em 14 e 17 de maio, e o resultado foi espetacular: vitórias por 6 a 1 e 4 a 0 sobre os uruguaios.
A carreira de Joreca teria um desfecho trágico. Depois de deixar o futebol, tornou-se lutador de boxe e voltou ao esporte anos depois para comandar o Corinthians em 52 partidas, em 1949, o mesmo ano em que morreu.
Filpo Núñez (1965)
Esta é provavelmente a história mais curiosa e menos conhecida de todas. Em 1965, a CBD decidiu que o Palmeiras representaria o Brasil em um amistoso contra o Uruguai, partida que também marcaria a inauguração do Estádio Mineirão, em Belo Horizonte.
O técnico do Verdão na época era o argentino Filpo Núñez, o "Don Filpo". Com o Palmeiras em campo usando o uniforme da Seleção, Núñez acabou sendo, na prática, o treinador da Amarelinha naquela noite. O time liderado por ele, a famosa "Academia" palmeirense, geração de jogadores que dominaria o futebol brasileiro nos anos seguintes, venceu o Uruguai por 3 a 0.
Filpo Núñez é, portanto, o único argentino a ter comandado a Seleção Brasileira, ainda que em circunstâncias que talvez não estivessem nos planos de ninguém.
O futuro da amarelinha é internacional?
A história mostra que a Seleção Brasileira nunca foi inteiramente fechada a treinadores estrangeiros, apenas muito seletiva e, por décadas, avessa ao risco. Os precedentes de Platero, Joreca e Filpo Núñez ficaram enterrados nas páginas menos visitadas da memória futebolística nacional.
Carlo Ancelotti é diferente de todos eles: chegou com currículo, com projeto, com visibilidade global e com o respaldo de uma CBF que decidiu, pela primeira vez, apostar num ciclo longo com um nome de fora. A renovação até 2030 transforma o que poderia ter sido um experimento numa política.
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