Ao longo de mais de um século de torneios, a maior competição do planeta funcionou como um grande laboratório para o esporte, cada edição testou os limites do regulamento, expôs suas falhas e, muitas vezes, forçou a IFAB a agir.
O resultado está em cada partida que você assiste hoje: no goleiro que é obrigado a jogar com os pés, na luz verde que confirma um gol, no árbitro que para o jogo para consultar uma tela.
Hoje, você vai entender quais foram as principais regras do futebol mudadas na Copa do Mundo, os lances históricos que as provocaram e o que ainda pode mudar nas próximas edições do torneio.
Quais foram as principais regras do futebol mudadas na Copa do Mundo?
As principais regras do futebol mudadas em decorrência de Copas do Mundo incluem a criação dos cartões amarelo e vermelho após o torneio de 1966, na Inglaterra; a lei do recuo para o goleiro, implementada após o antijogo generalizado na Copa da Itália de 1990; a tecnologia da linha do gol, adotada após o "gol fantasma" de Frank Lampard na África do Sul em 2010; e o Árbitro Assistente de Vídeo (VAR), estreado oficialmente na Copa da Rússia em 2018.
A invenção dos cartões: a barreira do idioma na Inglaterra em 1966
Hoje, o cartão amarelo e o cartão vermelho parecem uma parte tão óbvia do futebol que é difícil imaginar o jogo sem eles. Mas antes da Copa do Mundo de 1970, no México, não existia qualquer sinalização visual padronizada para as decisões disciplinares do árbitro.
Na Copa de 1966, disputada na Inglaterra, o árbitro argentino Arturo Yamasaki expulsou dois jogadores argentinos durante o jogo contra o Uruguai. O problema: nenhum dos expulsos entendeu que havia sido expulso.
A cena de jogadores discutindo, gestos sendo interpretados de formas diferentes e a partida parando repetidas vezes por incompreensão escancarou que a arbitragem dependia exclusivamente da comunicação verbal, e em um torneio global, esse modelo simplesmente não funcionava.
O árbitro inglês Ken Aston, que havia apitado partidas polêmicas naquele mesmo torneio, teve a ideia inspiradora enquanto estava parado no sinal de trânsito em Londres. Ao observar a sequência verde-amarelo-vermelho do semáforo, ele propôs um sistema visual universal: cartão amarelo para advertência, cartão vermelho para expulsão. A FIFA aprovou a ideia, e os cartões foram usados oficialmente pela primeira vez na Copa do México em 1970 e, desde então, nunca mais saíram do esporte.
A lei do recuo para o goleiro
A Copa do Mundo de 1990 é frequentemente citada como a mais entediante da história da competição. Com uma média de 2,21 gols por partida e um futebol marcado por retrancas, falta de criatividade e recuos deliberados, o torneio gerou uma crise de imagem para o esporte.
Sempre que uma equipe precisava ganhar tempo ou estava satisfeita com o resultado, bastava passar a bola para o goleiro, que segurava na mão por quanto tempo quisesse, antes de chutar para o campo adversário e reiniciar o ciclo. Não havia punição, não havia limite de tempo. Jogos inteiros podiam ser "gerenciados" dessa forma.
Em 1992, a IFAB aprovou a lei que proibia o goleiro de pegar com as mãos uma bola chutada intencionalmente por um companheiro de equipe. Se o fizer, o adversário recebe um tiro livre indireto dentro da área, o que, na prática, representa um pênalti quase certo. A mudança transformou a forma como os goleiros precisam jogar, tornando o passe com os pés uma habilidade técnica fundamental para a posição.
A tecnologia da linha do gol
Era a Copa do Mundo de 2010, África do Sul. Nas oitavas de final, Alemanha e Inglaterra se enfrentavam com o placar de 2 a 1 para os alemães. Aos 38 minutos do segundo tempo, Frank Lampard chutou forte, a bola bateu na trave, quicou claramente atrás da linha e voltou para o campo, sem que o árbitro ou o assistente validassem o gol. O jogo terminou em 4 a 1 para a Alemanha.
A cena foi transmitida para centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Replays mostravam, com clareza meridiana, que a bola havia ultrapassado a linha do gol em pelo menos 60 centímetros. Era, segundo a análise posterior, o gol mais claramente não-dado da história das Copas do Mundo.
A FIFA, que havia resistido historicamente a qualquer tecnologia no futebol, se viu sem argumentos. Dois anos depois, em 2012, a IFAB aprovou oficialmente a Tecnologia da Linha do Gol (GLT).
O sistema, que utiliza câmeras de alta velocidade ou sensores no interior da bola para detectar se ela cruzou inteiramente a linha, foi implementado na Copa das Confederações de 2013 e na Copa do Mundo do Brasil em 2014. Desde então, nenhum "gol fantasma" voltou a contaminar um grande torneio.
O que é a IFAB e qual seu papel nas regras do futebol?
A IFAB (International Football Association Board) é a única entidade global com autoridade para criar, alterar ou remover qualquer regra do futebol. Fundada em 1886, a IFAB é formada pela FIFA (que detém 50% dos votos) e pelas quatro associações fundadoras do futebol: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte (cada uma com 12,5% dos votos). Nenhuma mudança nas Leis do Jogo pode ser implementada sem a aprovação formal desta entidade.
A diferença de atuação entre FIFA e IFAB
É comum que torcedores e até jornalistas confundam os papéis da FIFA e da IFAB, usando os nomes de forma intercambiável. Na prática, as duas entidades têm funções completamente distintas.
A FIFA é a federação internacional responsável pela organização e promoção do futebol em nível global. Ela organiza as Copas do Mundo, regula as transferências de jogadores, gerencia contratos de transmissão e patrocínio, e representa o esporte perante governos e organismos internacionais.
A IFAB, por sua vez, é o órgão legislativo do futebol. Ela não organiza torneios nem gerencia jogadores, ela apenas define e atualiza as Leis do Jogo, o conjunto de 17 regras que rege toda e qualquer partida oficial de futebol no mundo, do campeonato de bairro à final da Copa do Mundo. A FIFA tem assento no conselho da IFAB, mas não pode mudar uma regra por conta própria.
Como funciona o processo de aprovação de uma nova regra
O caminho de uma ideia até se tornar uma regra oficial do futebol passa por etapas bem definidas. Primeiro, uma proposta é apresentada ao conselho da IFAB, ela pode vir da própria FIFA, de uma das quatro associações fundadoras, ou de grupos de trabalho internos.
Então, a proposta entra em um período de testes em competições autorizadas, onde seu impacto é monitorado. Por fim, a IFAB se reúne em sua Assembleia Geral Anual (AGM) e vota: são necessários 75% dos votos para que qualquer mudança seja aprovada.
Esse processo deliberado explica por que o futebol muda mais lentamente do que outros esportes. Mas também explica por que, quando uma mudança é aprovada, ela já vem respaldada por dados e testes.
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Como a tecnologia e o VAR foram implementados nas Copas?
Após anos de debates, testes em ligas nacionais e resistência de parte da comunidade do futebol, o Árbitro Assistente de Vídeo fez sua estreia oficial em uma Copa do Mundo na Rússia, em 2018. O sistema permite que árbitros de vídeo revisem, a partir de um centro operacional, quatro categorias de lances: gols e infrações na jogada que originou o gol, pênaltis, cartões vermelhos diretos e erros de identidade em cartões.
O VAR foi utilizado 335 vezes ao longo do torneio. Em 20 ocasiões, a decisão em campo foi revertida após a revisão. O número de pênaltis batidos no torneio (29) foi o maior da história das Copas do Mundo até então.
Ao mesmo tempo em que lances claramente errados foram corrigidos, as longas interrupções para revisão e a falta de comunicação transparente com o público nos estádios geraram críticas. O VAR havia chegado para ficar, mas claramente precisava evoluir.
O impedimento semiautomático no Catar em 2022
Uma das principais críticas ao VAR nos anos seguintes à sua estreia era o tempo gasto nas análises de impedimento. Árbitros de vídeo precisavam traçar manualmente linhas sobre imagens de câmeras para determinar se alguma parte do corpo de um atacante estava em posição irregular, um processo que podia durar vários minutos e que, ainda assim, era passível de imprecisão.
Para a Copa do Catar em 2022, a FIFA implementou o impedimento semiautomático. O sistema utiliza câmeras dedicadas e um software de rastreamento que mapeia 29 pontos do corpo de cada jogador em campo a 50 quadros por segundo.
Quando um lance de impedimento é questionado, o sistema gera automaticamente uma reconstrução tridimensional da jogada, calculando com precisão milimétrica as posições dos jogadores no exato momento do passe.
Qual o futuro das regras do esporte para as próximas Copas?
Uma das propostas mais debatidas atualmente na IFAB é a criação do chamado "cartão azul", que funcionaria como uma punição intermediária entre o cartão amarelo (advertência) e o vermelho (expulsão). O cartão azul determinaria uma suspensão temporária do jogador, que ficaria fora de campo por um período pré-determinado, similar ao que ocorre no hóquei no gelo ou no rugby.
Os defensores argumentam que a medida daria ao árbitro mais ferramentas para punir faltas táticas graves (como derrubar um adversário em contra-ataque ou protestos excessivos) sem a severidade de uma expulsão definitiva. Os críticos temem que a medida se torne mais uma ferramenta de confusão tática para equipes maiores e complique ainda mais o papel da arbitragem.
A IFAB autorizou testes com o cartão azul em algumas categorias do futebol amador e jovens. Se os resultados forem positivos, a proposta pode avançar para a aprovação formal.
O tempo de acréscimo e a busca pelo tempo de bola rolando
Na Copa do Catar 2022, o tempo de acréscimo médio por partida foi de aproximadamente 11 minutos, mais que o dobro do que era praticado em edições anteriores. A mudança foi deliberada: a FIFA orientou os árbitros a repor fielmente o tempo perdido em gols, substituições, revisões de VAR e atendimentos médicos.
Vários gols decisivos foram marcados nesse tempo extra, incluindo o gol de Ramos que empatou o jogo da Espanha contra a Costa Rica e o de Lozano que classificou o México. O debate sobre o tempo real de bola rolando ganhou força: em média, uma partida de futebol tem apenas 55 a 60 minutos de jogo efetivo, em comparação com mais de 70 em partidas de rugby e handebol.
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